Não consigo dormir. Os
acontecimentos do dia de hoje parecem arranhar seu caminho dentro da minha
cabeça, em minha memória, para fora. Espero que escrevendo esse relato eu
exporte esses pensamentos que crescem como erva daninha e encontre alguma
tranquilidade para poder finalmente descansar. Tenho esperança de que preencher
essas páginas em branco funcione como ritual praticado por um exorcista.
Provavelmente se assemelha mais ao comportamento supersticioso de uma criança
que age com manias e regras que só ela entende, relativo a um mundo que somente
ela enxerga. Se me trouxer paz, tudo bem.
![]() |
| Estação de trem de Londres |
Chegando à Londres
passei no meu quarto na pensão da Sra. Lucy, minha simpática e maternal
senhoria, onde tomei um banho, vesti roupas limpas e sai com minha pasta para
levar os documentos para o Sr. Dreyfuss. No caminho tive uma relaxante
experiência de almoçar no Bistrô Realle, no centro. Cito isso não porque essa
refeição ou o lugar onde estava tenha alguma relevância para os acontecimentos
que se seguem. Não. Me detenho nesse momento, no qual tomei uma sopa de carne
com batatas e pão porque percebi, depois de refletir bastante, que esse foi o último
momento de tranquilidade inocente que tive. Provavelmente de toda minha vida.
Portanto permito, sentimental, me demorar preguiçosamente sobre esse momento.
No entanto a verdade é
que essa refeição foi sorvida apressadamente porque estava ansioso por levar o
resultado do meu trabalho para meu empregador. Então paguei aquela refeição e
de charrete fui para o escritório do Sr. Dreyfuss. Qual minha surpresa (e
também contraste com o meu próprio humor radiante) encontrar meu empregador
abatido e aflito. A mina, como ele próprio não tardou a me informar, havia
sofrido um acidente. Homens morreram, o único sobrevivente estava internado em
um manicômio e os trabalhadores se recusavam a voltar a entrar na mina que
consideravam amaldiçoada.
![]() |
| Sr. William Dreyfuss |
O que poderia eu fazer
ao ver em tal estado de sofrimento um homem tão digno que, se a vida nos tivesse colocado
na mesma classe social, tenho certeza de que seriamos amigos e o amaria como um
irmão? Prontamente me ofereci, embora nem sabia para o que, a ajudá-lo. Ele
estava completamente sobrecarregado tanto de tarefas quanto de preocupações e
aceitou minha oferta. Queria que eu entrasse em contato com o minerador
sobrevivente e trouxesse algum esclarecimento sobre a tragédia, o que aquiesci em
fazer. No entanto, segundo Sr. Dreyfuss, isso não seria fácil e ele me
recomendou a entrar em contato com um tal senhor Thomas Beckham, seu conhecido
e membro da Scotland Yard. Deixei seu escritório com o compromisso de fazer
todo o possível para solucionar esse tenebroso mistério.
![]() |
| Diretor Hunsfield |
Com alguma dificuldade
consegui entrar em contato com o senhor Beckham e marcar um encontro para o
início da noite em um café, no centro. Durante a tarde aproveitei para ler as
principais manchetes dos jornais e me padeci lendo sobre a tragédia na mina do
senhor Dreyfuss e fiquei assombrado com um surto coletivo na cidade de Arkham
em Massachussets, na América bem como o desaparecimento de um navio no Oceano
Atlântico. Essas notícias ruins certamente prenunciavam o que estava por vir,
mas naquele momento, eu não era capaz de ler nas entrelinhas.
![]() |
| Thomas Beckham |
Fui para o café Le
Monde no horário marcado e para variar, como parece que aconteceu tudo nesse
dia 20 de agosto, Thomas Beckham chegou atrasado. Um sujeito atarracado, de
baixa estatura, barba e bigodes bem cuidados e aquele olhar cansado e triste
demonstrando que, no seu ramo de atividades, presenciou o pior que o ser humano
tem a oferecer e isso fez com que algo se partisse dentro de si. Beckham se
mostrou ser uma pessoa agressiva e desconfiada, mas pouco tempo de conversação,
após rirmos da história de como meu pai, fanhoso, me deu esse nome incomum
devido a sua dificuldade de fala, percebi que meu companheiro era um homem bom
e atribui toda sua agressividade à dificuldade que ele provavelmente enfrentou
toda sua vida para se impor em meio à polícia de Londres, devido sua pequena
estatura.
Conversávamos há pouco
tempo sobre o que o Sr. Dreyfuss havia nos requisitado e sobre as possíveis dificuldades de nossa empreitada quando um homem ofegante dobrou a esquina e abordou meu companheiro. Seu nome era Robert e, segundo compreendi pela conversa, ex policial da Scotland e atualmente trabalhava como detetive particular. Ele trazia consigo ordens da central para que Thomas fosse com ele até a casa de Sir. Joseph McDowell onde possivelmente havia acontecido um crime
durante uma festa. Antes de partir Robert perguntou me se sou capaz de lutar e,
ficando satisfeito com a resposta, me convidou a ir junto para ajuda-los. Então
eu fui.
![]() |
| Propriedade Mcdowell |
![]() |
| Sarah McDowell |
![]() |
| indiano |
Mas se eu havia ficado
aturdido com a presença do indiano foi porque não fazia a menor ideia do circo
de horrores que estava por se materializar. Pouco depois saíram de dentro da
mansão uma belíssima mulher, vestindo-se primorosamente para a festa,
discutindo com um mágico de cartola e capa. Pude reconhecer o mágico de
cartazes afixados próximos à estação de trem. Seu nome era Jasen Johson, “O
Magnifico” anunciava o cartaz. E para completar o quadro, antes de prosseguirmos às
investigações, Robert aceitou na propriedade um senhor de aparência pitoresca e
seus dois jovens e mal encarados ajudantes. Que grupo estranho formávamos!
Qualquer um que nos visse ali poderia sugerir que o circo estava se
apresentando e certamente o indiano engoliria espadas, o recém chegado senhor
apresentaria o espetáculo enquanto a bela mulher dançaria, o mágico tiraria um
coelho da cartola e eu... eu faria o mesmo que fiz naquele momento: ficaria
estupefato pelo que via.
![]() |
| Jasen Johnson |
![]() |
| Harry Hart |
A jovem mulher deu
alguns passos vacilantes e despejou o conteúdo de seu estômago na mata. Todos
desviaram o rosto, horrorizados, daquela cena. Pude ver o vulto de alguém que
na escuridão, não consegui discernir quem, arranhando o próprio rosto. O
indiano murmurava palavras em uma língua estranha repetindo sempre “R’lyeh” e “F'htagn”. Mas nosso terror estava apenas começando. Se encontrar a criança daquela forma profanada fosse uma porta, nela estaria gravado “Abandone toda a esperança aquele que aqui entrar”, como gravou o mestre italiano sobre o portal
de seu inferno particular. Momentos depois, nem mesmo havíamos tido tempo de nos
recuperar, se é que é possível se recuperar de uma visão como essa, palavras impronunciáveis
propagaram pelo ar e sobre o corpo da garota uma criatura proveniente do mais
perturbado pesadelo bateu suas asas exibindo um corpo vagamente humanoide,
porém maior do que um homem, com asas, com uma longa cauda que se dividia em
três e longos tortos chifres. Seus membros não seguiam a simetria que
conhecemos e a disposição de seus muitos membros não fazia o menor sentido. Parece
que nós o vimos de perto, mas tal criatura estava alto no ar, e estava escuro,
mas afetou a todos tão profundamente que, por breve que tenha sido o momento, ficou marcado para todo o sempre na minha memória, ai de mim! A vil criatura
lançou sobre nós seu pérfido olhar e com um bater de asas silencioso
desapareceu.
Eu perdi o sentidos.
Mas não por muito tempo pois quando me recobrei a mulher estava próxima e vomitando. O indiano abraçado à árvore onde o corpo da pobre Sarah estava,
chorava copiosamente. Eu podia escutar o senhor berrando desesperado não muito
longe dali, se distanciando, assim como o mágico. Thomas permanecia em um
estado de letargia catatônica. Robert e os dois outros homens estavam
desacordados no chão. Eu engatinhei até Robert para não ter que olhar para o
alto novamente e sacudi o investigador. Como ele não respondeu tentei
reanima-lo até perceber horrorizado que estava morto. Gritei desvairado, não me
orgulho, para Thomas avisando que seu companheiro estava morto e, vendo ao lado
de seu corpo sua pistola caída no chão, apanhei para mim instintivamente, para
caso a criatura resolvesse voltar. Engatinhei até os dois outros homens
inconscientes simplesmente para constatar que também estavam mortos.
![]() |
| Retrato que fiz da criatura |
Respirei fundo e,
pensando em minha irmã caçula Lizzy quando tinha aquela idade, reuni toda força
de vontade e coragem que me restava e escalei aquela árvore porque era
inconcebível deixar a pequena Sarah daquela forma ali. Embrulhei o pequeno
corpo no paletó que retirei de um dos homens e, quando percorria o caminho de
volta, escorreguei e caí no chão com aquele embrulho sangrento. Com muito
esforço consegui me levantar e arrastar comigo Thomas enquanto levava a filha
do Sir McDowell para a mansão.
Voltar para a luz mal
foi um consolo. Os sobreviventes dessa terrível experiência estavam espalhados
pela propriedade e pela mansão, procurando de maneiras diferentes, serem eles
mesmos novamente. Repousei o embrulho no hall da mansão e acompanhei Thomas,
que havia acabado de ligar para a polícia pedindo reforços, até o escritório
para dar a notícia. Sir McDowell correu desvairado até onde se encontrava o
corpo da filha, comigo e Thomas em seus calcanhares. Quando chegou lá não
acreditou que dentro daquele terno ensanguentado estava sua filha. Era sua
última chance de ver a filha pois o enterro seria de caixão fechado, o alertei.
Ele se convenceu a ver a filha e teve um acesso de fúria e horror que descontou
em todos nós. Não tive a intenção de ser cruel, mas foi o que pareceu. No
entanto, acreditei, que aquela garota merecia uma última atenção da pessoa que
mais a amou em vida, afinal era sua última chance.
![]() |
| Scotland Yard |
Não sei quais as
razões que levou quase todos nós para o mesmo lugar. Posso responder por Thomas
e por mim que fomos convidados pelo senhor Harry Hart – descobrimos seu nome –
a irmos ao seu estabelecimento onde poderíamos beber por conta da casa.
Seguimos a senhorita Anita Walsh – esse era seu nome – o indiano cujo nome não
sou capaz de lembrar, ou pronunciar, o senhor Harry Hart Thomas e eu para um
estabelecimento burlesco chamado "Le Cabaré" onde, com um simples
gesto de mãos, nosso anfitrião garantiu que bebidas nos fossem servidas. Não
tenho o costume de frequentar lugares como esse, bem da verdade, é a primeira
vez que adentrei recinto tão espetacular dedicado às artes eróticas mas meu
constrangimento e surpresa poderia ser comparado ao dos frequentadores que viam
aquele indiano gigante e mal cheiroso em meio a pessoas tão bem arrumadas e
atraentes discutindo com um cavalheiro cuja aparência era digna de um gangster!
Para mim, no entanto, a noite acabaria naquele balcão de bar. Voltei para meu quarto tão bêbado quanto possível na esperança de que o álcool me fizesse perder a consciência. Infelizmente, a partir do momento que deitei minha cabeça no travesseiro e fechei os olhos, as cenas hediondas daquela noite terrível voltaram a me assombrar. Agora escrevo em meu diário essas palavras na esperança de que, ao recitá-las em voz alta, os acontecimentos percam sentido e se provem ser nada além de sonhos de uma mente perturbada. Essa opção me parece ser bem melhor do que aceitar que todos esses eventos narrados sejam reais.
Para mim, no entanto, a noite acabaria naquele balcão de bar. Voltei para meu quarto tão bêbado quanto possível na esperança de que o álcool me fizesse perder a consciência. Infelizmente, a partir do momento que deitei minha cabeça no travesseiro e fechei os olhos, as cenas hediondas daquela noite terrível voltaram a me assombrar. Agora escrevo em meu diário essas palavras na esperança de que, ao recitá-las em voz alta, os acontecimentos percam sentido e se provem ser nada além de sonhos de uma mente perturbada. Essa opção me parece ser bem melhor do que aceitar que todos esses eventos narrados sejam reais.
Jon
Sullivan














Nenhum comentário:
Postar um comentário