domingo, 11 de setembro de 2016

Diário de Jon Sullivan : 1

Londres, 20 de agosto de 1890


Não consigo dormir. Os acontecimentos do dia de hoje parecem arranhar seu caminho dentro da minha cabeça, em minha memória, para fora. Espero que escrevendo esse relato eu exporte esses pensamentos que crescem como erva daninha e encontre alguma tranquilidade para poder finalmente descansar. Tenho esperança de que preencher essas páginas em branco funcione como ritual praticado por um exorcista. Provavelmente se assemelha mais ao comportamento supersticioso de uma criança que age com manias e regras que só ela entende, relativo a um mundo que somente ela enxerga. Se me trouxer paz, tudo bem.

Estação de trem de Londres
Minha viagem de negócios foi muito bem sucedida, tanto pela parte da venda do Sr. William Dreyfuss, fruto de extração da mina de carvão mais próspera da Inglaterra, quiçá do mundo, quanto da minha própria mercadoria. Peguei o trem na estação Highspring a locomotiva das 8h, atrasada como sempre. Mas a essa hora da manhã, depois de tomar um café na estação, eu estava com o humor despreocupado de quem realizou um trabalho bem feito. Ai de mim! Inocente, naquele momento, eu não sabia que a Londres para onde retornava não era a encantadora cidade de onde havia partido uma semana antes, mas sim uma metrópole sombria e repleta de horrores. Mas estou me adiantando.

Chegando à Londres passei no meu quarto na pensão da Sra. Lucy, minha simpática e maternal senhoria, onde tomei um banho, vesti roupas limpas e sai com minha pasta para levar os documentos para o Sr. Dreyfuss. No caminho tive uma relaxante experiência de almoçar no Bistrô Realle, no centro. Cito isso não porque essa refeição ou o lugar onde estava tenha alguma relevância para os acontecimentos que se seguem. Não. Me detenho nesse momento, no qual tomei uma sopa de carne com batatas e pão porque percebi, depois de refletir bastante, que esse foi o último momento de tranquilidade inocente que tive. Provavelmente de toda minha vida. Portanto permito, sentimental, me demorar preguiçosamente sobre esse momento.

No entanto a verdade é que essa refeição foi sorvida apressadamente porque estava ansioso por levar o resultado do meu trabalho para meu empregador. Então paguei aquela refeição e de charrete fui para o escritório do Sr. Dreyfuss. Qual minha surpresa (e também contraste com o meu próprio humor radiante) encontrar meu empregador abatido e aflito. A mina, como ele próprio não tardou a me informar, havia sofrido um acidente. Homens morreram, o único sobrevivente estava internado em um manicômio e os trabalhadores se recusavam a voltar a entrar na mina que consideravam amaldiçoada.

Sr. William Dreyfuss
O que poderia eu fazer ao ver em tal estado de sofrimento um homem tão digno que, se a vida nos tivesse colocado na mesma classe social, tenho certeza de que seriamos amigos e o amaria como um irmão? Prontamente me ofereci, embora nem sabia para o que, a ajudá-lo. Ele estava completamente sobrecarregado tanto de tarefas quanto de preocupações e aceitou minha oferta. Queria que eu entrasse em contato com o minerador sobrevivente e trouxesse algum esclarecimento sobre a tragédia, o que aquiesci em fazer. No entanto, segundo Sr. Dreyfuss, isso não seria fácil e ele me recomendou a entrar em contato com um tal senhor Thomas Beckham, seu conhecido e membro da Scotland Yard. Deixei seu escritório com o compromisso de fazer todo o possível para solucionar esse tenebroso mistério.

Diretor Hunsfield
Passei na Universidade onde depositei o cheque que havia acabado de receber pelo meu trabalho para
quitar minha dívida e assim poder voltar e terminar meu curso de história. Quão insatisfeito ficou o velho diretor Hunsfield com o meu retorno eu fiquei satisfeito com seu desprazer. Antes de qualquer coisa devo esclarecer que o velho Hunsfield se mostrou contrariado desde a primeira vez que pus meus pés na universidade. Ele pensava, e ainda pensa, que aquele templo do saber não era um lugar para um filho de pescador, como eu, mas não podia recusar o dinheiro que eu lhe trazia de forma que ele, indignado, aceitava minha presença enquanto eu, em júbilo, sentia prazer em tirar a paz do velho diretor.

Com alguma dificuldade consegui entrar em contato com o senhor Beckham e marcar um encontro para o início da noite em um café, no centro. Durante a tarde aproveitei para ler as principais manchetes dos jornais e me padeci lendo sobre a tragédia na mina do senhor Dreyfuss e fiquei assombrado com um surto coletivo na cidade de Arkham em Massachussets, na América bem como o desaparecimento de um navio no Oceano Atlântico. Essas notícias ruins certamente prenunciavam o que estava por vir, mas naquele momento, eu não era capaz de ler nas entrelinhas.

Thomas Beckham
Fui para o café Le Monde no horário marcado e para variar, como parece que aconteceu tudo nesse dia 20 de agosto, Thomas Beckham chegou atrasado. Um sujeito atarracado, de baixa estatura, barba e bigodes bem cuidados e aquele olhar cansado e triste demonstrando que, no seu ramo de atividades, presenciou o pior que o ser humano tem a oferecer e isso fez com que algo se partisse dentro de si. Beckham se mostrou ser uma pessoa agressiva e desconfiada, mas pouco tempo de conversação, após rirmos da história de como meu pai, fanhoso, me deu esse nome incomum devido a sua dificuldade de fala, percebi que meu companheiro era um homem bom e atribui toda sua agressividade à dificuldade que ele provavelmente enfrentou toda sua vida para se impor em meio à polícia de Londres, devido sua pequena estatura.
Robert
Conversávamos há pouco tempo sobre o que o Sr. Dreyfuss havia nos requisitado e sobre as possíveis dificuldades de nossa empreitada quando um homem ofegante dobrou a esquina e abordou meu companheiro. Seu nome era Robert e, segundo compreendi pela conversa, ex policial da Scotland e atualmente trabalhava como detetive particular. Ele trazia consigo ordens da central para que Thomas fosse com ele até a casa de Sir. Joseph McDowell onde possivelmente havia acontecido um crime durante uma festa. Antes de partir Robert perguntou me se sou capaz de lutar e, ficando satisfeito com a resposta, me convidou a ir junto para ajuda-los. Então eu fui.


Propriedade Mcdowell
A região da cidade onde vivem os nobres e ricos é afastada e uma longa viagem de charrete nos levou à imponente propriedade de Sir Mcdowell. Logo quando chegamos uma multidão de convidados e empregados se espremiam para sair. Um péssimo começo, pensei eu, se todas as possíveis testemunhas de um crime estavam partindo. O portão foi trancado logo que entramos e encontramos o proprietário visivelmente alterado e alcoolizado. Aquela festa era a celebração do aniversário de nove anos de sua filha Sarah e ela havia desaparecido.

Sarah McDowell
Robert fez algumas perguntas para Sir. Mcdowell e eu, confesso, fiquei aturdido com a visão que tive. Eis que no jardim, perto daquela personalidade que todo londrino vê com certa frequência nos jornais da cidade, por sua elegância, posses e fofocas da nobreza, estava um indiano de 1,90m, com aquele semblante de um mestre sábio que pode ser visto em reportagens sobre a Índia, bem como usando vestes – e odor, devo observar – digno de um mestre dos mendigos. A visão era tão insólita que parecia uma pintura de mau gosto e me deixou tão impressionado que quando Robert me entregou uma máquina de fotografar portátil, a primeira foto que tirei foi do indiano.

indiano
Mas se eu havia ficado aturdido com a presença do indiano foi porque não fazia a menor ideia do circo de horrores que estava por se materializar. Pouco depois saíram de dentro da mansão uma belíssima mulher, vestindo-se primorosamente para a festa, discutindo com um mágico de cartola e capa. Pude reconhecer o mágico de cartazes afixados próximos à estação de trem. Seu nome era Jasen Johson, “O Magnifico” anunciava o cartaz. E para completar o quadro, antes de prosseguirmos às investigações, Robert aceitou na propriedade um senhor de aparência pitoresca e seus dois jovens e mal encarados ajudantes. Que grupo estranho formávamos! Qualquer um que nos visse ali poderia sugerir que o circo estava se apresentando e certamente o indiano engoliria espadas, o recém chegado senhor apresentaria o espetáculo enquanto a bela mulher dançaria, o mágico tiraria um coelho da cartola e eu... eu faria o mesmo que fiz naquele momento: ficaria estupefato pelo que via.

Anita Walsh
Jasen Johnson
Logo após Sir Mcdowell se trancar no próprio escritório nós todos, nem todos de boa vontade, seguimos para a parte de trás da propriedade. Era um belo lugar, mas já passavam das 21h, o ambiente estava escuro e uma floresta agourenta nos aguardava mais à frente. Seguindo alguns rastros que encontrei, com a ajuda da câmera, seguimos justamente naquela direção, tendo como única iluminação uma lamparina que Robert carregava consigo. Contornamos um lago e adentramos a mata. Mal demos os primeiros passos dentro da mata um terrível e nauseante odor nos circulou. Cobri meu rosto com um lenço e pude escutar alguns outros tossindo, enojados e atordoados. Eu mesmo vacilei ante aquele cheiro que sou incapaz de descrever. Talvez, somente talvez, eu possa dar uma ideia aproximada ao dizer que quando Bill me levou, quando eu ainda tinha 14 anos e era pescador, para ver o corpo de um pescador cuja barriga havia sido aberta por um arpão e arrastado pela maré até a margem onde, para se alimentar, outros animais rasgaram o restante de seu ventre e espalharam suas entranhas ao redor até se fartarem do banquete deixando assim a carcaça do pobre homem sob o sol por dias antes de ser encontrado repleto das criaturas rastejantes que prosperam na decomposição dos cadáveres, aquele cheiro insuportável que senti na minha juventude, era nada além de uma fração daquele que sentíamos.


Harry Hart
Nos espalhamos pela mata, procurando pela pequena Sarah, temendo que tipo de tragédia poderia ter se sucedido a uma garotinha de 9 anos em um ambiente como aquele. A minha imaginação jamais poderia igualar a realidade do que encontramos. Quem deu o sinal foi o indiano que gesticulava sem nada dizer, chamando nossa atenção. Fomos até ele e olhamos para onde apontava. Horror! Ele apontava para o horror! Como poderia algum ser humano, mesmo o mais lunático, conceber tal perversidade? No alto da árvore, presa entre os galhos, estava o corpo da pequena Sarah, com seus membros desconjuntados em posições completamente não naturais, seu corpo aberto voltado para o alto e seu pescoço quebrado com o rosto virado para baixo.

A jovem mulher deu alguns passos vacilantes e despejou o conteúdo de seu estômago na mata. Todos desviaram o rosto, horrorizados, daquela cena. Pude ver o vulto de alguém que na escuridão, não consegui discernir quem, arranhando o próprio rosto. O indiano murmurava palavras em uma língua estranha repetindo sempre “R’lyeh” e “F'htagn”. Mas nosso terror estava apenas começando. Se encontrar a criança daquela forma profanada fosse uma porta, nela estaria gravado “Abandone toda a esperança aquele que aqui entrar”, como gravou o mestre italiano sobre o portal de seu inferno particular. Momentos depois, nem mesmo havíamos tido tempo de nos recuperar, se é que é possível se recuperar de uma visão como essa, palavras impronunciáveis propagaram pelo ar e sobre o corpo da garota uma criatura proveniente do mais perturbado pesadelo bateu suas asas exibindo um corpo vagamente humanoide, porém maior do que um homem, com asas, com uma longa cauda que se dividia em três e longos tortos chifres. Seus membros não seguiam a simetria que conhecemos e a disposição de seus muitos membros não fazia o menor sentido. Parece que nós o vimos de perto, mas tal criatura estava alto no ar, e estava escuro, mas afetou a todos tão profundamente que, por breve que tenha sido o momento, ficou marcado para todo o sempre na minha memória, ai de mim! A vil criatura lançou sobre nós seu pérfido olhar e com um bater de asas silencioso desapareceu.

Retrato que fiz da criatura
Eu perdi o sentidos. Mas não por muito tempo pois quando me recobrei a mulher estava próxima e vomitando. O indiano abraçado à árvore onde o corpo da pobre Sarah estava, chorava copiosamente. Eu podia escutar o senhor berrando desesperado não muito longe dali, se distanciando, assim como o mágico. Thomas permanecia em um estado de letargia catatônica. Robert e os dois outros homens estavam desacordados no chão. Eu engatinhei até Robert para não ter que olhar para o alto novamente e sacudi o investigador. Como ele não respondeu tentei reanima-lo até perceber horrorizado que estava morto. Gritei desvairado, não me orgulho, para Thomas avisando que seu companheiro estava morto e, vendo ao lado de seu corpo sua pistola caída no chão, apanhei para mim instintivamente, para caso a criatura resolvesse voltar. Engatinhei até os dois outros homens inconscientes simplesmente para constatar que também estavam mortos.

Respirei fundo e, pensando em minha irmã caçula Lizzy quando tinha aquela idade, reuni toda força de vontade e coragem que me restava e escalei aquela árvore porque era inconcebível deixar a pequena Sarah daquela forma ali. Embrulhei o pequeno corpo no paletó que retirei de um dos homens e, quando percorria o caminho de volta, escorreguei e caí no chão com aquele embrulho sangrento. Com muito esforço consegui me levantar e arrastar comigo Thomas enquanto levava a filha do Sir McDowell para a mansão.

Voltar para a luz mal foi um consolo. Os sobreviventes dessa terrível experiência estavam espalhados pela propriedade e pela mansão, procurando de maneiras diferentes, serem eles mesmos novamente. Repousei o embrulho no hall da mansão e acompanhei Thomas, que havia acabado de ligar para a polícia pedindo reforços, até o escritório para dar a notícia. Sir McDowell correu desvairado até onde se encontrava o corpo da filha, comigo e Thomas em seus calcanhares. Quando chegou lá não acreditou que dentro daquele terno ensanguentado estava sua filha. Era sua última chance de ver a filha pois o enterro seria de caixão fechado, o alertei. Ele se convenceu a ver a filha e teve um acesso de fúria e horror que descontou em todos nós. Não tive a intenção de ser cruel, mas foi o que pareceu. No entanto, acreditei, que aquela garota merecia uma última atenção da pessoa que mais a amou em vida, afinal era sua última chance.

Scotland Yard
A polícia chegou justamente quando estávamos sendo expulsos da propriedade. Thomas orientou onde estava cada vítima daquele tenebroso episódio, sem descrever o que realmente havia acontecido porque sabia que ninguém a não ser nós que vivenciamos, acreditaria. Lamentavelmente, não sei por quais comportamentos passados, Thomas acabou perdendo o distintivo e a arma ali mesmo naquele jardim. Caminhamos juntos para a saída combinando beber em qualquer lugar quando fomos alcançados pelo restante do grupo que discutia calorosamente sobre a posse ilegal, por parte de Jasen o Magnifico de um artefato que por fim ele entregou ao indiano. Tão aturdido eu estava com os acontecimentos que nem me lembrava do indiano! Um breve vislumbre que o guru proporcionou do objeto, me causou náusea e tontura. Sua simetria disforme e errada remetia claramente à criatura que avistamos na floresta e pior, alguma característica não pude discernir qual, passava a clara informação de que o objeto representava uma estrela negra feita de algum material aparentemente desconhecido para a ciência humana. Quão atordoante é para a mente humana tentar entender algo completamente incompreensível! O asco era tanto que não pude observar o objeto por mais do que alguns segundos. Felizmente não era eu o guardião do tal artefato, mas sim o indiano que, aparentemente, mantinha sua sanidade intacta o suficiente para desejar destruí-lo.

Não sei quais as razões que levou quase todos nós para o mesmo lugar. Posso responder por Thomas e por mim que fomos convidados pelo senhor Harry Hart – descobrimos seu nome – a irmos ao seu estabelecimento onde poderíamos beber por conta da casa. Seguimos a senhorita Anita Walsh – esse era seu nome – o indiano cujo nome não sou capaz de lembrar, ou pronunciar, o senhor Harry Hart Thomas e eu para um estabelecimento burlesco chamado "Le Cabaré" onde, com um simples gesto de mãos, nosso anfitrião garantiu que bebidas nos fossem servidas. Não tenho o costume de frequentar lugares como esse, bem da verdade, é a primeira vez que adentrei recinto tão espetacular dedicado às artes eróticas mas meu constrangimento e surpresa poderia ser comparado ao dos frequentadores que viam aquele indiano gigante e mal cheiroso em meio a pessoas tão bem arrumadas e atraentes discutindo com um cavalheiro cuja aparência era digna de um gangster!


Para mim, no entanto, a noite acabaria naquele balcão de bar. Voltei para meu quarto tão bêbado quanto possível na esperança de que o álcool me fizesse perder a consciência. Infelizmente, a partir do momento que deitei minha cabeça no travesseiro e fechei os olhos, as cenas hediondas daquela noite terrível voltaram a me assombrar. Agora escrevo em meu diário essas palavras na esperança de que, ao recitá-las em voz alta, os acontecimentos percam sentido e se provem ser nada além de sonhos de uma mente perturbada. Essa opção me parece ser bem melhor do que aceitar que todos esses eventos narrados sejam reais.

                                                                                                                                             Jon Sullivan

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