"Nada de extraordinário aconteceu, apenas mais uma tragédia, o mundo está cheio delas", foi o que eu disse para as autoridades de Rockport naquela cálida manhã. Como poderia ser diferente, sob o olhar vigilante do meu sargento, Thomas Blerg. "Houve um naufrágio, com muita sorte, meus companheiros e eu conseguimos chegar à ilha do farol e lá nos deparamos com uma cena de crime. Quando consegui fazer o rádio funcionar, pedi ajuda à guarda costeira que nos resgataram e aqui estamos", finalizei meu depoimento.
Não tenho certeza, mas acredito ter identificado uma expressão de alívio no rosto do delegado local. Minha narrativa dos eventos coincidiu com as dos meus colegas náufragos, o Dr. Refaat Ismall e o famoso ator Rudolph Valentino, e condizia com o que o delegado esperava colocar em seu relatório. Eu mesmo estaria inclinado a acreditar nessa versão, trágica, porém simplória, se fosse o único sobrevivente dos terríveis eventos que marcaram a tempestuosa noite do dia 12 de abril de 1926. Mas as memórias dos meus colegas não me permitem esquecer, por mais que o esquecimento fosse, muito certamente, preferível.
E como poderíamos esquecer, quando perdemos na mesma tragédia, Warren, Tom e Nina? Seria legá-los ao esquecimento, como se suas vidas não tivessem importado e suas mortes, fúteis caprichos do destino. Não! Eu não me esqueci de nenhum dos meus companheiros que afundaram no Queen Mary, na Jutlândia, não é agora que vou começar a esquecer aqueles que ficaram para trás.
Escrevo essas notas exatamente para não correr o risco de me esquecer, ainda que, mesmo agora pouco após os acontecimentos, minha mente pareça não se esforçar para reter determinados eventos. Como, porém, posso condená-la, quando nem mesmo consigo dar sentido à todos os horrores que testemunhei? Acreditei, por muitos anos, que após sobreviver à Grande Guerra, havia presenciado todos os horrores que a humanidade é capaz de submeter o seu semelhante, mas fui um tolo em acreditar nisso. Se existe um Deus no firmamento, como o Padre Moley costumava a afirmar em suas ladainhas dominicais que meus pais me forçavam a assistir durante a minha infância, tenho certeza de que ele pouco se importa com os diminutos seres que habitam essa bola de lama que chamamos de lar. Ou talvez Ele esteja rindo se de nós.
Por outro lado, não creio que houvesse nada de humano naquilo que se abateu, tão violentamente, sobre nós, de forma que não estaria, então completamente errado em minhas convicções anteriores à respeito do mal que o homem é capaz de fazer com o homem. Mas isso significa, então, que estava errado sobre outro fato ainda mais perturbador, algo que deturba e perverte os fundamentos da sanidade humana sobre os quais toda a nossa sociedade construiu as suas - percebo agora - frágeis fundações: o homem não é o que de pior pode acontecer ao homem.
Mas estou me adiantando, temo que, se me perder em devaneios agora, no futuro quando folhear essas páginas, tudo que encontrarei serão indícios de um homem que deixou sua sanidade na guerra e é incapaz de dar sentido ao mundo que o rodeia no presente. Então vamos retornar do princípio, tudo começou quando eu recebi uma ligação do meu colega de tripulação da nau Erin, Warren Thomas, querendo encontrar-se comigo em minha terra natal, a ilha de Rockport. Era o dia 11 de abril de 1926 e eu comprei meu ingresso no barco Blerg, que fazia uma das poucas viagens de Boston para lá nessa época do ano.

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